Calorões na perimenopausa e na menopausa: por que acontecem e como tratar

Os calorões, chamdos de fogachos ou sintomas vasomotores, são o sintoma mais comum da perimenopausa e da menopausa, e têm tratamento. A reposição hormonal é o tratamento mais eficaz, e quem não pode ou não quer usar hormônio também tem opções.

No consultório, as mulheres descrevem o calorão como um desconforto enorme. Muitas me contam que perdem o raciocínio no meio do que estavam fazendo. O calorão costuma aparecer mais à noite e nas situações de mais estresse, como reuniões importantes ou conversas difíceis, que são justamente os momentos em que o corpo já ficaria naturalmente mais quente.

O que é o calorão?

O calorão é uma onda de calor que sobe pelo peito, pelo pescoço e pelo rosto, muitas vezes com suor, vermelhidão e coração acelerado. Quando acontece durante o sono, ele se chama suor noturno.

O calorão nasce no hipotálamo, a região do cérebro que controla a temperatura do corpo. Com a queda do estrogênio, um grupo de neurônios do hipotálamo que usa uma substância chamada neurocinina B fica hiperativo. O cérebro passa a entender que o corpo está quente demais e dispara a resposta para perder calor: os vasos da pele se dilatam e o suor aparece, como descreve a revisão de Maki e Thurston na Frontiers in Neurology (2020).

Segundo a NAMS (hoje chamada The Menopause Society, renomeada em 11/07/2023), até 80% das mulheres têm calorões na menopausa.

Quanto tempo duram os calorões?

Os calorões frequentes duram, em média, 7,4 anos. Esse é o resultado do estudo SWAN, que acompanhou 1.449 mulheres com calorões frequentes e foi publicado na JAMA Internal Medicine (Avis e colaboradores, 2015). No mesmo estudo, os calorões continuaram, em média, 4,5 anos depois da última menstruação. Mas algumas mulheres ainda sentem alguns episódios mesmo aos 70 anos.

O estudo mostrou também que, quando o calorão começa cedo, ainda com a menstruação vindo, ele tende a durar mais. Por isso esperar passar sozinho pode significar muitos anos de sono ruim e de desconforto.

Por que o calorão atrapalha o raciocínio?

O calorão atrapalha o raciocínio pela interrupção do momento e pelo sono que ele quebra à noite, e os estudos sugerem que ele também se relaciona com mudanças no cérebro. A memória e a concentração que pioram nessa fase são o que muitas mulheres chamam de névoa mental.

Um estudo publicado na Neurology (Thurston e colaboradores, 2023) mediu os calorões com um aparelho na pele e fez ressonância do cérebro em 226 mulheres. As mulheres com mais calorões, principalmente durante o sono, tinham mais lesões pequenas na substância branca, a parte do cérebro que liga uma região à outra. Esse tipo de lesão se associa a mais risco de AVC e de perda de memória ao longo dos anos.

Outro estudo do mesmo grupo, publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology (2024), encontrou uma ligação entre os calorões durante o sono e marcadores no sangue associados à doença de Alzheimer. Os 2 estudos mostram uma associação e ainda não provam que o calorão causa essas mudanças. Mesmo assim, eles mostram que o calorão merece atenção médica e não é só um incômodo.

Existe também uma hipótese, ainda sem comprovação em estudos com mulheres, de que o próprio aumento de temperatura durante o calorão prejudique o funcionamento dos neurônios e piore a névoa mental.

O calorão diz alguma coisa sobre o coração?

Sim. Os calorões frequentes e que duram muitos anos estão associados a mais risco de infarto, AVC e outros problemas do coração no futuro.

No estudo SWAN, que acompanhou 3.083 mulheres por até 22 anos, as que tinham calorões em 6 dias ou mais a cada 2 semanas tiveram 51% mais eventos cardiovasculares. As mulheres com calorões frequentes que persistiram ao longo dos anos tiveram 77% mais eventos. Os resultados foram publicados no Journal of the American Heart Association (Thurston e colaboradores, 2021), e os autores consideram o calorão um possível fator de risco cardiovascular próprio da mulher.

Por isso, quando uma paciente me conta que tem muitos calorões, eu olho também para a pressão, o colesterol, a glicemia e o peso dela.

Como se trata o calorão?

Para a mulher que pode usar hormônio, a reposição hormonal é sempre a minha primeira opção. A The Menopause Society (2022) considera a reposição hormonal o tratamento mais eficaz para os calorões, com benefício maior do que o risco para a maioria das mulheres com menos de 60 anos ou com menos de 10 anos desde a última menstruação. Quem escolhe a dose e o tipo de hormônio é a médica, na consulta, depois de avaliar a história de cada mulher. Eu explico como isso funciona no post Reposição hormonal na menopausa.

Para quem não pode ou não quer usar hormônio, existem remédios sem hormônio com efeito comprovado, segundo a posição de 2023 da The Menopause Society:

  • Antidepressivos de algumas classes, em dose mais baixa do que a usada para depressão. São os que eu mais uso quando a mulher não vai fazer reposição.

  • Fezolinetanto, um remédio que bloqueia a neurocinina B no hipotálamo. Ele foi aprovado pela Anvisa em 22/06/2026, segundo o Conselho Federal de Farmácia, mas ainda não chegou às farmácias.

  • Gabapentina, um remédio usado também para dor e convulsão. Eu uso menos, porque ela pode engordar e piorar a concentração, que já é uma queixa comum nessa fase. Numa revisão de 21 estudos publicada no American Journal of Obstetrics and Gynecology (Shan e colaboradores, 2020), a gabapentina deixou o risco de tontura 4 vezes maior e o de sonolência 3 vezes maior do que o placebo.

Hábitos e fitoterápicos ajudam?

Nesse ponto, a diretriz e a minha prática no consultório não dizem exatamente a mesma coisa, e eu prefiro mostrar as 2.

A posição de 2023 da The Menopause Society recomenda a perda de peso, a terapia cognitivo-comportamental e a hipnose clínica para os calorões. A mesma posição não recomenda, como tratamento dos calorões, evitar os gatilhos, usar técnicas de resfriamento, fazer exercício ou yoga, nem os suplementos e fitoterápicos, porque os estudos com essas medidas não mostraram redução consistente dos calorões.

No consultório, eu oriento todos os hábitos: dormir num quarto fresco, reduzir o álcool, perder peso quando há excesso, dormir bem e fazer exercício. Mesmo quando um hábito não diminui o número de calorões, ele melhora o sono, o peso e a saúde do coração, que são justamente os pontos que o calorão atinge.

Os fitoterápicos podem ajudar um pouco na fase inicial, quando os calorões ainda são leves. Eu prescrevo alguns, sabendo que a resposta varia muito de uma mulher para outra, e acompanho para ver se fizeram efeito.

Quando procurar a endocrinologista?

O calorão merece consulta sempre que ele incomoda, porque ele tem tratamento e, como os estudos acima mostram, ele também diz algo sobre a saúde do coração e do cérebro. Vale marcar uma consulta quando:

  • o calorão acorda você à noite ou atrapalha o seu dia a dia;

  • o calorão vem com coração acelerado, tremor ou perda de peso sem explicação;

  • o calorão começou antes dos 40 anos;

  • você não pode usar hormônio e quer conhecer as outras opções.

Na consulta, eu sempre investigo outras causas antes de concluir que o calorão vem da perimenopausa ou da menopausa, como alterações da tireoide e efeito de algum remédio.

Perguntas frequentes

O calorão pode começar antes de a menstruação parar? Pode. O calorão muitas vezes começa na perimenopausa, quando a menstruação ainda vem, mas já fica irregular. Eu explico os primeiros sinais dessa fase no post Perimenopausa: os primeiros sinais.

Suor noturno é a mesma coisa que calorão? É. O suor noturno é o calorão que acontece durante o sono, e ele é um dos motivos mais comuns de a mulher acordar de madrugada nessa fase, mas não o único.

O calorão passa sozinho? Passa, mas devagar. No estudo SWAN, os calorões frequentes duraram em média 7,4 anos, e o tratamento evita esses anos de desconforto.

Se eu não posso usar hormônio, vou ter que conviver com o calorão? Não. Existem remédios sem hormônio que reduzem os calorões, e a escolha depende da sua história e dos outros sintomas que você tem.

Quer tratar os seus calorões?

Eu atendo no consultório no Itaim Bibi, em São Paulo, com avaliação dos hormônios, do coração, do sono e dos hábitos. Para marcar uma consulta, fale com a minha equipe pelo WhatsApp.

Dra Patricia Gracitelli, MÉDICA endocrinologista, CRM-SP 113018, RQE 69887

Atendimento no Itaim Bibi, São Paulo.

Publicado em 07/11/26 · Revisado em [07/11/26.

Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.

Próximo
Próximo

Reposição hormonal na menopausa: quem pode fazer e quem deve evitar?