Reposição hormonal na menopausa: quem pode fazer e quem deve evitar?

A terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os calorões e os suores noturnos da menopausa. Costuma ser indicada para mulheres com menos de 60 anos ou até 10 anos de menopausa, sem contraindicações, e a decisão é individual.

Neste texto eu explico quem eu considero boa candidata, quem precisa de avaliação cuidadosa, como eu escolho o tratamento e como é o acompanhamento.

O que é a reposição hormonal da menopausa?

Reposição hormonal e terapia hormonal são o mesmo tratamento. Ele usa estrogênio, sozinho ou junto com um progestogênio (hormônio parecido com a progesterona). Segundo a American Academy of Family Physicians (AAFP), toda mulher que tem útero precisa do progestogênio para reduzir o risco de câncer de endométrio (o revestimento do útero).

Para que ela serve e para que não serve?

Segundo a Sociedade Norte-Americana de Menopausa (NAMS), a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os calorões e para a síndrome geniturinária da menopausa (ressecamento e desconforto urinário e genital). Ela também previne perda óssea e fraturas.

A AAFP lembra que ela não é indicada só para prevenir doença do coração ou demência, nem para emagrecer.

Quem eu considero boa candidata?

A melhor candidata é a mulher com muitas queixas, em quem eu consigo ver que elas não vêm apenas do estilo de vida, porque os sintomas podem se confundir, e que não tem contraindicações.

Sobre a idade, a NAMS, a AAFP e o consenso brasileiro dizem o mesmo: os benefícios costumam superar os riscos em mulheres com menos de 60 anos ou até 10 anos de menopausa, sem contraindicações.

Quem precisa de avaliação cuidadosa ou não deve fazer?

As diretrizes listam estas contraindicações:

•      câncer de mama ou outro câncer que depende de estrogênio

•      trombose

•      AVC

•      doença do coração

•      doença ativa do fígado

•      pressão alta não controlada

•      sangramento vaginal sem explicação

Nesses casos eu avalio com muito cuidado. Mulheres que já tiveram infarto estão entre elas.

Eu também avalio com atenção a mulher com mais de 60 anos, mesmo quando a menopausa começou há menos de 10 anos. Fora da janela de idade, o consenso brasileiro aponta que o risco para o coração aumenta quando a terapia começa tarde e recomenda, em geral, começar por um tratamento sem hormônio para os calorões.

Quais exames eu peço antes de começar?

Os mesmos que descrevi em Perimenopausa: quais são os primeiros sinais?: exames de sangue e exames de imagem (mamografia, ultrassom das mamas e ultrassom transvaginal). Os exames de imagem mostram se há nódulo na mama ou alteração no endométrio, que podem ser uma contraindicação.

Comprimido, adesivo ou gel?

Eu prefiro a via transdérmica, em que o hormônio passa pela pele: estrogênio em adesivo, gel ou spray. Segundo a AAFP, essa via tem menos risco de trombose que a oral.

O progestogênio depende do caso. Se a mulher tem DIU hormonal de levonorgestrel, em geral ela não precisa de outro progestogênio. Se não tem, eu uso o progestogênio por via oral, que pode ser a progesterona micronizada ou a didrogesterona. No adesivo, eu uso a noretisterona, que é a única forma de progestogênio pela pele com segurança para o endométrio. O consenso brasileiro aponta que a progesterona micronizada e a didrogesterona têm menor risco de trombose e de câncer de mama que os outros progestogênios, e não recomenda o gel de progestogênio.

Quando a mulher ainda precisa de contracepção, eu uso o comprimido anticoncepcional, porque a reposição hormonal não é suficiente para evitar a gravidez em mulheres que ainda menstruam.

Quais são os riscos?

Segundo a NAMS, os riscos variam com o tipo de hormônio, a dose, o tempo de uso, a via e o momento em que o tratamento começa. Por isso a escolha é individual e precisa de reavaliação periódica.

O que mudou nos avisos do FDA?

Em novembro de 2025, o FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, anunciou a retirada do quadro de alerta máximo (a "caixa preta") das frases sobre doença do coração, câncer de mama e demência nos hormônios da menopausa. O texto continua na bula, em outro trecho. O alerta para quem tem útero continua: o estrogênio deve vir junto com um progestogênio, por causa do câncer de endométrio.

A mudança vale para os rótulos nos EUA. No Brasil, a bula segue a Anvisa.

A reposição hormonal engorda?

Não. Quando a paciente chega com medo, eu explico que não é a reposição que engorda: é a própria fase de perimenopausa e menopausa, junto com a idade.

Uma revisão da Cochrane com 28 estudos randomizados e 28.559 mulheres não encontrou diferença de peso entre quem usou terapia hormonal e quem não usou. A mesma revisão não achou evidência de que a terapia previna o ganho de peso da menopausa. Ou seja, ela não é um tratamento para emagrecer. Para entender o que muda no corpo nessa fase, leia por que a gordura abdominal aumenta na menopausa e como tratar.

Por quanto tempo posso usar?

A princípio, a paciente pode continuar por tempo indeterminado, com reavaliações periódicas. O consenso brasileiro não define um tempo máximo nem uma idade para parar, e a decisão é individual. A NAMS diz que os usos mais longos devem ter uma indicação documentada, como calorões que persistem, com decisão compartilhada e reavaliação periódica.

Como é o acompanhamento?

No primeiro ano, as reavaliações são mais frequentes:

•      nos primeiros meses, uma conversa por mês, mesmo que curta

•      uma reavaliação mais formal a cada 3 meses

•      repetição dos exames de imagem em 6 meses

Nos programas de acompanhamento contínuo, como o programa Equilíbrio, eu converso com a paciente também entre as consultas.

Quando eu paro o tratamento?

Eu paro quando:

•      aparece um nódulo suspeito

•      os sintomas ou efeitos colaterais não melhoram com a mudança de dose ou do modo de uso

•      há sangramento vaginal muito intenso relacionado ao tratamento

E os hormônios manipulados e os implantes?

Eu não uso hormônios manipulados nem implantes. A NAMS desaconselha os manipulados, porque não são aprovados pela agência reguladora americana e têm risco de dose inconsistente e de pureza variável, segundo a AAFP.

No Brasil, o CFM proíbe prescrever hormônios androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, e a Anvisa manteve, em novembro de 2024, a proibição dos implantes hormonais com essas finalidades.

Perguntas frequentes

A reposição hormonal causa câncer de mama? Segundo a NAMS, o risco não aumenta de forma importante com o uso curto de estrogênio com progestogênio, e pode diminuir com estrogênio sozinho. A idade já é um fator de risco isolado para o câncer de mama: segundo o INCA, a maior parte dos casos ocorre a partir dos 50 anos. Em um estudo com dados dos registros de câncer de base populacional do Brasil (2010 a 2015), a taxa foi de 156,5 casos por 100 mil mulheres entre 40 e 69 anos e de 247,5 por 100 mil a partir dos 70 anos. Quem já teve câncer de mama não deve usar, e eu peço os exames de imagem antes de começar.

Posso começar depois dos 60 anos? Depende do caso. Fora da janela de idade, o consenso brasileiro recomenda, em geral, começar por um tratamento sem hormônio. Se a terapia hormonal for escolhida, prefere a via transdérmica e a menor dose possível. Eu avalio cada paciente.

Reposição hormonal e terapia hormonal são a mesma coisa? Sim. São dois nomes para o mesmo tratamento.

E se eu tiver efeitos colaterais? Se eles não melhorarem com a mudança de dose ou do modo de uso, eu paro o tratamento por um tempo e tento novamente por outras vias.

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Se você quer saber se a terapia hormonal serve para você, posso avaliar o seu caso no meu consultório, no Itaim Bibi, em São Paulo. Conheça o tratamento da menopausa e da perimenopausa e agende pelo WhatsApp.

Dra Patricia Gracitelli, MÉDICA endocrinologista, CRM-SP 113018, RQE 69887

Publicado em 04/11/26. Revisado em 04/11/26.

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